Cria de Caxias que alcançou 2 milhões de seguidores cita inspiração em Lázaro Ramos e Taís Araújo e fala sobre perda da mãe: ‘Luto tardio’
Dan Mendes, o cria de Caxias que com humor e letramento racial atingiu 2 mi de seguidores Nascido e criado em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, o influenc...
Dan Mendes, o cria de Caxias que com humor e letramento racial atingiu 2 mi de seguidores Nascido e criado em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, o influenciador Dan Mendes, que reúne mais de 2 milhões de seguidores nas redes sociais, mantém uma relação próxima com a cidade onde cresceu — e onde ainda vive grande parte de sua família. Dan é mais um entrevistado da série Influência de Cria, que está no GloboPop, o novo aplicativo de vídeos curtos verticais da Globo, disponível gratuitamente no seu celular. Lá no app, você pode seguir o palco do "Influência de Cria" para não perder nenhum episódio. Baixe o GloboPop. Em entrevista, Dan relembra a infância marcada pela convivência com a mãe, que morreu quando ele tinha 11 anos, e fala sobre como precisou amadurecer cedo para ajudar a cuidar da irmã após a perda. Segundo ele, o impacto do luto foi sentido de forma mais intensa anos depois, já na transição para a vida adulta. Dan Mendes Arte g1 O criador de conteúdo também destaca a importância de referências negras em sua formação, citando artistas como Lázaro Ramos e Taís Araújo. Nas redes sociais, ele começou produzindo conteúdos sobre questões raciais, impulsionado pelo debate em torno do movimento Black Lives Matter, antes de ampliar sua atuação para o humor, segmento que ajudou a expandir seu público. 📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia Ao longo da conversa, Dan fala ainda sobre os desafios de crescer sendo um jovem negro na Baixada Fluminense, criado no Morro do Sapo, Complexo da Mangueirinha, a importância da educação em sua trajetória e a responsabilidade de servir de inspiração para pessoas que compartilham origens semelhantes às suas. Confira a entrevista completa abaixo: Dan Mendes e família Reprodução Qual é a sua relação com Duque de Caxias? “A minha relação com Caxias tem a ver com a minha existência. Eu nasci lá, fui criado lá e a minha família toda mora lá, então a minha relação com Caxias nunca se apagou, eu acho que jamais se apagará. Eu estou sempre lá com a minha família, então eu estou sempre visitando minhas irmãs, visitando minha tia, passando dias com eles. Então, essa minha relação é muito nesse lugar familiar e também afetuoso, né, que família tem a ver com afeto. Então, toda minha família, todos os meus parentes continuam morando lá, então é um lugar que é muito próximo de mim sempre, continua fazendo parte da minha realidade. Caxias, Baixada Fluminense, assim, todas as minhas maiores lembranças, recordações, todas se dão nesse lugar. Eu não tenho a sensação de ter mudado de Caxias, porque eu nunca me desvinculei de Caxias." Como foi a sua infância? "A minha infância foi uma infância muito tranquila. Eu acho que pela minha mãe ser educadora, a gente teve as fases da infância muito bem estruturadas. Eu venho de uma família tradicional de pai, mãe, irmãos ali tá vivendo e convivendo juntos. E as lembranças que eu tenho maiores da minha infância são as lembranças com a minha mãe porque ela faleceu eu tinha 11 anos. Eu tenho lembranças muito fortes dela, que se deram na minha infância, início da adolescência. Então, sempre que se fala de infância, eu lembro muito da minha mãe, porque foi o único momento da vida que eu tive ali com ela. Então, a minha infância é marcada pela passagem da minha mãe assim na minha vida." Como você encarou o luto? "Foi um luto que eu sempre falo que foi tardio. Como minha mãe faleceu, meu pai não demorou muito a se casar de novo e eu tenho uma irmã que tem anemia falciforme, então a gente tinha uma preocupação muito grande de como ela ia reagir a essa falta. Então, eu fui muito pai da minha irmã nesse período e isso fez com que eu amadurecesse muito rápido, assim, não tivesse muito tempo de pensar em luto, porque eu não podia, a minha irmã não podia me ver triste, porque isso não podia dar gatilho nela e a gente sabia que isso para saúde dela não seria legal. Eu comecei a sentir falta da minha mãe, desse lugar de mãe, de perguntar, de dar orientação, foi quando eu fui partir para faculdade, que era uma coisa que eu já estava fugindo da minha juventude, indo para a vida adulta. Foi quando eu comecei a sentir mais falta." Quais eram suas referências na infância? "A minha maior referência não é nem de ninguém da internet, porque eu sou uma criança dos anos 2000, ali, 90, 2000. Então, as minhas referências eram de televisão. Então, assim, Lázaro Ramos, Taís Araújo, essas personalidades que são as minhas maiores referências hoje, que são do audiovisual. Não é da internet em si, porque eu sou de uma outra geração. Dan Mendes Reprodução Então, eles são as grandes referências para o meu trabalho, de postura, de chegar a um lugar e alcançar lugares sendo de famílias não ricas. Então, eles são umas referências para mim de pessoas pretas." Como você começou a produzir conteúdo? "Eu não tive um um start assim de ‘ah eu vou começar a produzir conteúdo porque eu quero trabalhar com internet’, nunca foi nesse lugar. Eu comecei a falar sobre causas raciais na internet, na época do Black Lives Matter, que estava muito aquecido esse assunto. E aí as pessoas começaram a conhecer o meu perfil e aí eu continuei falando sobre o colorismo, sobre como era ser preto no Brasil, como era que as pessoas liam a gente e isso começou a me dar uma base de pessoas que acompanhavam o meu trabalho. Eu não tive um vídeo viral que mudou a minha vida, eu tive começos. E aí depois eu fui migrando para o humor, fui fazendo respondendo caixinha, que foi um grande viral para mim, também trouxe mais uma base de pessoas grande no meu perfil, porque o humor ele comunica com todo mundo. Então eu saí um pouco do meu nicho ali que era mais nesse lugar de professor, de falar sobre causas raciais e fui assim eh me expressando enquanto artista, que eu sempre gostei muito de dançar, de criar. Eu lembro que eu sempre fui muito criativo na escola, de participar em gincana, essas coisas. No começo eu tinha até um pouco de receio de mostrar minha veia humorística, que eu sempre soube que eu tinha uma veia muito aguçada para o humor, porque as pessoas que estavam ali, elas davam muito crédito à palavra que eu dava e era nesse lugar muito sério. Então tinha até um pouco de receio, mas as pessoas se divertiam muito comigo nos stories." Você se vê como uma inspiração? "Quando chega mensagem do tipo de que eu sou inspiração, que a minha trajetória inspira pessoas que saíram de lugares parecidos com os meus, para mim é muito gratificante porque realmente as pessoas sabem a dificuldade do que é nascer na favela, do que é ser preto, do que é o mercado de trabalho, de como a gente é visto pela da sociedade. E eu acho que eu estar ali com o meu corpo, com a minha cara falando do jeito que eu sou e não me desvincular da comunidade, como que acaba que parece que você precisa fazer para ser visto como mais elegante e tal, eu acho que já é uma uma militância maior do que qualquer outra, sabe? E eu acho que o que eu prezo hoje é que o meu corpo, que eu, que minha arte chegue nos lugares de maneira que atinja as pessoas e que elas, principalmente pessoas pretas, olhem e vejam possibilidade nisso. Desde cedo eu sempre soube que era preto, que era difícil, mas com didática minha mãe ensinou a gente a entender que a gente é preto, que a gente não podia usar qualquer roupa, que a gente não podia estar em determinado lugar, que a gente tinha que se comportar diferente de outras pessoas porque a gente era preto e que a gente precisava estudar. Dan Mendes Reprodução Então assim, era isso. Tem que estudar por quê? Porque você é preto. Com o estudo já não tá muito fácil. Então se você não tiver uma formação, não tiver um lugar acadêmico fica mais difícil ainda. Até mesmo como pobre a gente vivia bem, porque minha mãe trabalhava, meu pai trabalhava, a gente vivia bem, às vezes eu estava dentro de um curso de inglês fazendo ali porque meu pai estava pagando, e que o único preto da sala era eu. E acabou o assunto. Então, assim, eu na adolescência visitei muitos lugares que eu era o único preto. E eu não tô falando dos lugares de luxo, porque, por exemplo, fazer um curso de inglês não tinha que ser um artigo de luxo. Mas a gente sabe que muitas pessoas da comunidade não tem acesso a fazer um curso de inglês particular."